\* Saia franzida, presa entre as pernas com alfinetes de dama. Lendas e Tradições. 2008
1. Alentejo. Autor desconhecido |
2. Évora. Autor desconhecido |
3. Viana do Alentejo. Grupo Coral Feminino de Viana do Alentejo, Festival Escrita na Paisagem 2004
Lavra Vozes apresenta-se como um projeto composto por várias ações de perscrutação do território sobre o papel da mulher nas esferas do privado, do social, do religioso e do trabalho, promovendo a reflexão sobre os dispositivos biopolíticos que regulam o corpo feminino.
Desde o aparecimento das calças, no Ocidente, o uso desta peça foi interdito às mulheres durante cerca de 500 anos. Contudo, no contexto rural alentejano, a chamada “saia das calças”*, usada pelas trabalhadoras do campo, respondeu às exigências de um sistema económico que necessitava do corpo feminino como força de trabalho, mas queria-o, simultaneamente, modesto, invisível e disciplinado. A “saia das calças” torna-se, assim, uma metáfora viva de um corpo híbrido: entre submissão e resistência, entre visível e oculto, entre norma e transgressão.
O Alentejo torna-se, deste modo, o epicentro de paradoxos representativos da sociedade moderna: corpos manipulados para responder às exigências da força de trabalho, expropriados e menorizados. Por uno lado, a interdição do uso de calças por parte da mulher confere-lhe uma identidade de género — o “ser mulher” —, mas essa identidade é suplantada pela necessidade de gerar força produtiva, permitindo-lhe usar calças para esse fim. O corpo feminino surge, assim, como território político e palco de resistência; a permissão ou interdição do uso de calças exemplifica como o corpo feminino é regulado por dispositivos de poder que definem e limitam a sua expressão, sublinhando que o género é uma construção performativa sujeita a normas sociais e políticas (Butler).
Este paradoxo pode ser lido à luz da teoria do biopoder, que descreve como os dispositivos de governação regulam a vida, a sexualidade e a produtividade dos corpos (Foucault).
A mulher, neste contexto, é simultaneamente marcada por normas de género e instrumentalizada como força de trabalho.
A associação histórica entre a mulher e a natureza constitui um dos eixos centrais da sua subjugação no processo de formação do capitalismo. A partir da transição para a economia capitalista, o corpo feminino passa a ser progressivamente apropriado como território de reprodução da força de trabalho, ao mesmo tempo que a natureza é convertida em recurso explorável. Esta dupla expropriação — do corpo da mulher e da terra — estabelece uma lógica de dominação que separa produção e reprodução, visibilizando o trabalho produtivo e invisibilizando o trabalho reprodutivo, historicamente atribuído às mulheres, uma vez que a expropriação dos corpos está ligada à reorganização do trabalho e à deslocação da esfera da autonomia para a da produtividade regulada (Federici).
No contexto rural alentejano, esta relação é particularmente evidente: o corpo feminino surge como extensão da terra, ambos sujeitos a regimes de controlo, disciplinamento e exploração. A mulher torna-se mediadora entre ciclos naturais e exigências económicas, mas é privada de autonomia sobre ambos.
Pensar o Alentejo hoje implica compreender a profunda transformação visual, social e económica que o território atravessa, assente numa nova reforma agrária intrincada numa rede económica à escala global. A chamada revolução agrária 4.0, associada ao perímetro de rega do Alqueva e ao paradigma da 4.ª Revolução Industrial (2011, Hannover), introduziu uma agricultura intensiva, altamente mecanizada, orientada para a exportação e dependente de fluxos de mão de obra migrante. Este modelo produtivo reconfigura radicalmente a paisagem, substitui culturas, altera os ritmos da terra e introduz novas formas de exploração do trabalho, agora sustentadas, em grande parte, por corpos imigrantes precarizados, racializados e invisibilizados. Se antes o corpo feminino rural era mobilizado entre a interdição moral e a necessidade produtiva, hoje são sobretudo corpos estrangeiros que sustentam a rentabilidade do agronegócio, reinscrevendo no território uma lógica histórica de expropriação, deslocamento e disciplinamento. A terra torna-se infraestrutural, calculável e financeirizada, enquanto os corpos que a trabalham permanecem descartáveis, revelando a persistência de uma economia política assente na extração simultânea da vida dos recursos naturais e da vida humana.
A ONU lança 2026 como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Este reconhecimento internacional dos pastores e das pastagens surge num momento em que o paradigma dominante — como o do Alqueva — promove a terra como infraestrutura intensiva, abstrata e financeirizada. Porquanto o pastoreio, pelo contrário, assenta numa relação extensiva, situada e relacional com o território, onde o tempo é cíclico e não acelerado, o conhecimento é incorporado, intergeracional e ecológico e a produtividade não é maximizada à custa da exaustão do solo nem da invisibilização do trabalho, ainda que este possa ser igualmente extremamente precarizado.
Perante a escala infraestrutural e global destes processos, cuja transformação ultrapassa a capacidade de intervenção direta à escala local, Lavra Vozes assume-se como um gesto de reflexão crítica e de resistência à microescala. Através do corpo, da voz, do gesto e do lento caminho da ação coletiva, o projeto procura contrariar as lógicas de aceleração, invisibilização e extração que atravessam o território, reativando práticas de escuta, cuidado e relação.
Com o apoio de Évora_27 Capital Europeia da Cultura, no âmbito da call “A Nossa Vez”, Lavra Vozes inscreve-se no quotidiano como prática de atenção e insurgência, afirmando que é também na pequena escala — nos corpos, nos gestos e nas comunidades — que se constroem outras possibilidades de habitar o território.